Da proclamação da República ao mais recôndito município, a política portuguesa desenvolveu uma patologia crónica: o culto da vaidade sobre a eficácia. O país encheu-se de palcos, inaugurações de primeiras pedras e discursos inflamados, enquanto a realidade quotidiana de quem produz riqueza continua remetida para segundo plano. A riqueza de uma nação não habita nos gabinetes ministeriais nem nas sedes de concelho; reside, integralmente, no esforço diário do contribuinte.
Ao longo de mais de um século de regime republicano, assistiu-se à consolidação de uma classe política que muitas vezes confunde o serviço público com a autocelebração. Nas autarquias locais, o fenómeno multiplica-se: orçamentos astronómicos são canalizados para obras de fachada e eventos efémeros destinados a alimentar egos eleitorais, enquanto infraestruturas básicas, cuidados essenciais e a desburocratização da vida dos cidadãos ficam estagnados. O contribuinte deixa de ser o cliente soberano do Estado para se tornar no mero financiador do espetáculo.
Esta inversão de prioridades levanta uma questão desconfortável para o século XXI: até que ponto a pressão fiscal e burocrática atual não constitui uma nova forma de servidão? Quando um cidadão trabalha quase metade do ano unicamente para cumprir obrigações fiscais, sem ver esse esforço traduzido em serviços públicos de qualidade equivalente — na saúde, na educação ou na justiça —, o contrato social quebra-se. Não se trata de negar a importância do Estado, mas de questionar o seu papel quando este se transforma num fim em si mesmo, sugando o rendimento de quem produz para sustentar a máquina da sua própria vaidade.
A verdadeira modernização de um país não se mede pelo número de monumentos ou de promessas partidárias, mas pela liberdade, prosperidade e respeito concedidos a quem sustenta a economia. Enquanto a vaidade política continuar a sobrepor-se ao bem-estar e às necessidades reais do contribuinte, a política continuará a ser vista não como uma solução, mas como o principal obstáculo ao futuro da nação.
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