Rubriquei um espaço, aqui no Famalicão Canal TV, durante umas 12 semanas, aos domingos, com a participação do Reitor do Seminário de Coimbra, o Pe. Nuno Santos, em que lhe postilhei o título “Os Rostos de Deus”.
A riqueza de vocabulário, a destreza de palavra, a sublime forma de falar dos temas propostos, a frescura intelectual adequada aos nossos tempos e a humildade provocatória dos diálogos para nos fazer pensar foi uma unidade vanguardista, de comunicação, desse sacerdote.
Fui rever um ou outro desses programas, re-escutando e revisionando. De imediato, por uma questão pessoal e de sentir a minha religiosidade cristã, rebaptizei o programa: “Os Rostos de Cristo”. Estava a ouvir a voz esclarecida e benfazeja, na RR, do antigo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. A sua narrativa despertou-me para olhar, em casa, para a cruz do Senhor que está deitada numa das minhas mesinhas, de um dos quartos.
Olhei-o – é uma cruz das que estavam nas nossas escolas (não faziam mal a ninguém, mas o advento do esquerdismo apeou-as…) – para revisitar o seu rosto. Os homens do seu tempo, o d´Ele, verdascaram-no, lancetaram-lhe o coração e retiraram-mo da cruz já morto.
Os Seus olhos penetrantes que o possibilitavam de ver tudo, de olhar o seu povo e de interpretar a sua comunidade está nessa minha cruz.
Face a transbordar de misericórdia, de respeito pelos outros e de alegria, também figura nesse símbolo que guardo.
Parece que me bafejava palavras – escutei nessa imagem o silêncio dessas – de proximidade, de perdão, de busca das nossas dificuldades, de compreensão das nossas quedas e das nossas misérias humanas, mas transmitiam-me amor.
Os Rostos de Cristo falam da sua proposta humanista, de saber aceitar o outro, de estender a mão a quem mais precisa, de escutar quem necessita de desabafar, de permanecer para dialogar, de tolerar o mais errante ou em dificuldades e de espalhar amor sem olhar a quem…
No Mundo de hoje, pestilento de ódios e escarrado de rancores, os Rostos de Cristo, quando aparecem nas cruzes por aí espalhadas, nas Igrejas, nos chamados tabernáculos das nossas vidas e no rosto do outro, o que passa ao nosso lado, caminha connosco e vive na nossa dimensão social acaba por ser um elixir, um perfume e um alento para nos reposicionarmos e nos dizermos presentes.
Grato aos Rostos de Cristo pela sua visita, pelo seu silêncio revitalizador e pela sua presença, carregando luz para a vida.
António Barreiros
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