Vila Nova de Famalicão parece viver num estado de transe coletivo, uma atmosfera que oscila entre o extraordinário e o alucinante. Quem acompanha o pulsar político e social do concelho não consegue escapar a uma incómoda sensação de nervosismo que emana dos corredores da autarquia local. Sob a capa de um progresso ruidoso e omnipresente, a realidade quotidiana dos famalicenses começa a desenhar um cenário bem diferente — e consideravelmente mais cinzento.
Enquanto o executivo municipal aposta as suas fichas numa narrativa de modernidade, multiplicam-se as denúncias dos cidadãos, encontrando eco crescente na comunicação social. O contraste entre a propaganda e o facto é visível a olho nu em locais emblemáticos da cidade. No Parque 1º de Maio, por exemplo, os lagos exibiam – até ao dia de ontem [17 de junho] – uma água estagnada e esverdeada, num preocupante quadro de insalubridade pública. Mais grave ainda é a denúncia de aves cadáveres em avançado estado de decomposição, cuja recolha tardou em acontecer, expondo uma gritante falha na manutenção básica do espaço urbano.
Este cenário de desleixo expõe uma autarquia que parece ter perdido a capacidade de ser proativa, agindo quase exclusivamente na reação: uma câmara municipal que só se mexe após o apontar do dedo e a pressão pública.
A gestão dos grandes eventos e do espaço público também tem estado sob fogo cruzado. As recentes Festas Antoninas, tradicionalmente um momento de união, converteram-se em palco de contestação devido a um orçamento que muitos munícipes consideram desmedido e desajustado da realidade socioeconómica do concelho. A juntar a isto, a colocação de equipamentos de diversão no meio de uma das principais avenidas da cidade gerou uma onda de desaprovação e críticas legítimas sobre o planeamento urbano, a mobilidade e o respeito pelo descanso dos residentes.
Perante isto, a oposição assume o seu papel fiscalizador e reclama o que deveria ser a base de qualquer democracia local: transparência. Denuncia-se a falta de clareza nos processos e nas decisões de um executivo que parece fechar-se sobre si mesmo.
Para sustentar esta fachada de sucesso, assiste-se a uma hipertrofia do marketing político. A comunicação social local e regional ressente-se, sentindo o seu espaço de isenção invadido por uma estratégia de autopromoção do executivo. As visitas coreografadas a empresas, transformadas em vídeos promocionais com uma estética que mais faz lembrar o programa “Boa Cama, Boa Mesa” ou “Imagens de Marca”, servem mais o ego dos governantes do que o real tecido produtivo famalicense. Promove-se o acessório enquanto o essencial fica por resolver.
Em suma, quando o espetáculo e a imagem passam a valer mais do que a gestão rigorosa, corre-se o risco severo de ignorar a própria LEI e os princípios que regem a administração pública e a nação. Entre lagos poluídos e vídeos de alta definição, os famalicenses começam, legitimamente, a fazer a pergunta que ecoa com cada vez mais força: Afinal, onde vamos parar?
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