O nosso D. Tolentino, o Cardeal, o teólogo e o poeta-escritor, madeirense de berço, tem o dom de saber jogador xadrez com as palavras, o que aproveita a comunicação e a torna mais expressiva, assim como melhor a interpretamos.
Para ele o abraço tem a forma do nosso corpo… E os abraços – bendiz – “fazem a arquitectura íntima da vida”.
Tolentino segue com a sua visão do abraço ao descrevê-lo como uma coisa que não existe antes de o darmos. Isto é provocador. Ainda bem… O abraço tem a comunhão do encontro de dois corpos, como o sublinha. O mesmo abraço, no seu entendimento de homem das letras, “faz-nos levantar os pés ou inclinar o tronco”. E abraça-nos com esta frase: “obriga-nos a debruçarmo-nos ao encontro de outrem, para lá de nós (…)”.
Tolentino proclama que um abraço “activa a hospitalidade e essa é uma excelente ponte para o tema da oração”.
Fica a dica para os nossos dias para abraçarmos para nos sabermos envolvidos, acarinhados, incluídos, agrupados, comunitários, construtores de pontes, amados e capazes de rezar aos céus, ao Alto e aos Santos…sobre nós, os do nosso sangue, os próximos ou os que, por preconceitos, continuamos a apartar ou a excluir.
Todos os dias, sem excepção, dou um forte e sentido abraço a quem amo. Não espreito nesse abraço, a um ou a outra que entrego esse sinal de um sentimento nobre, a sujidade moral, as vestes encardidas, o riso tosco e malandro, as bocas maliciosas, a febre das maluquices…e tantas outras nódoas com que me aparece este e aqueloutro dia.
O meu abraço é agregador, apaziguador e, também, de ternura e, ainda, transporta o símbolo da paz, da energia que afaga e que pode deixar marca, a minha…a que pretende dizer que te ou vos amo.
Com esta palavra de Tolentino, descobri que o abraço pode ser a câmara para me motivar a rezar…elevar a minha voz ao Alto. Podemos estar alheios dessa “figura”, mas rezar é, também, falarmos connosco, com os outros e com Ele…Vou abraçar mais, para rezar melhor. Abraço, o meu, para ti, para ele, para vós e para eles.
António Barreiros
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