Antiga eurodeputada alertou para o risco de desvalorização dos territórios rurais e reclamou recursos concretos e autonomia para os Grupos de Ação Local na sessão de encerramento da Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural, em Vila Verde.
O mundo rural deve ser reconhecido pelo seu valor próprio, assumindo um papel ativo e de real poder de decisão nas políticas que moldam o seu futuro. A garantia foi deixada por Isabel Estrada Carvalhais em Vila Verde, durante a sessão de encerramento da Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural «LEADER: a política que transforma territórios», promovida pela Federação Minha Terra. A académica e antiga eurodeputada alertou para o desfasamento entre as expectativas depositadas nestes territórios e a escassez de meios disponibilizados, exigindo uma mudança profunda no próximo quadro europeu de financiamento.
Interveniente principal da sessão de encerramento do evento, que reuniu em Vila Verde representantes institucionais, organizações de desenvolvimento local e agentes do terreno, Isabel Estrada Carvalhais sustentou que «o mundo rural vale por ele mesmo». Na leitura da antiga eurodeputada, os territórios do interior não podem continuar a ser encarados de forma redutora, servindo apenas como suporte aos espaços urbanos ou como meros instrumentos de produção agrícola, biodiversidade e segurança alimentar.
Analisando as conclusões do manifesto apresentado na conferência, Carvalhais sublinhou que a participação das comunidades locais — consubstanciada ao longo de 35 anos pela abordagem LEADER e pelos Grupos de Ação Local (GAL) — não pode resumir-se à consulta ou à execução burocrática de projetos. «Não apenas para o escutar, não apenas para consultar, não apenas para executar, mas para decidir, para participar no processo de decisão», apelou, classificando o trabalho dos GAL como uma verdadeira experiência de «democracia viva, participativa e de proximidade».
Financiamento e soberania alimentar em risco
Outro dos eixos fundamentais da intervenção centrou-se no desajuste entre a elevada importância estratégica atribuída às comunidades rurais — nomeadamente na preservação da biodiversidade e na autonomia alimentar — e a insuficiência de recursos financeiros alocados.
«Esse desajuste de expectativas será fatal se não for corrigido no próximo quadro europeu de financiamento», advertiu a académica. Face ao próximo Quadro Financeiro Plurianual, Isabel Estrada Carvalhais defendeu uma visão estratégica integrada que encare o desenvolvimento rural como um pilar essencial da própria soberania e defesa europeias, lembrando que a capacidade de assegurar recursos essenciais é tão crucial quanto a dimensão militar.
Diversidade territorial e o papel das mulheres
Apontando para a heterogeneidade do país, a antiga eurodeputada distinguiu a realidade dos territórios do Norte, caracterizados por maior dinamismo comunitário e presença jovem, dos desafios estruturais do Sul, mais marcados pelo envelhecimento e pelo despovoamento. Destacou, a este propósito, o papel vital das mulheres mais velhas na preservação da vida e dos laços comunitários nas aldeias, bem como a condição específica das regiões autónomas dos Açores e da Madeira.
Para dar resposta a estas especificidades, Carvalhais sintetizou em três palavras o que é necessário garantir às estruturas de proximidade: «Respeito, apoio e ferramentas». O respeito institucional, aliado a um financiamento adequado e a processos de gestão menos complexos, surge assim como condição indispensável para que o mundo rural possa continuar a dar o seu contributo, fundamentando um futuro construído com base na capacidade de decisão dos próprios agentes locais.
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