Presidente da Câmara desvaloriza críticas e aponta “ruído” do PS, enquanto os socialistas denunciam desvios de 5 milhões de euros e o Chega exige o reforço da fiscalização.
A última Reunião de Câmara de Famalicão, realizada a 10 de julho de 2026, ficou marcada por uma troca acesa de acusações entre o Executivo liderado por Mário Passos (PSD/CDS) e os partidos da oposição. No centro do debate estiveram as revisões de preços e os trabalhos complementares nas obras públicas do concelho, as novas acessibilidades ao hospital local e as recentes medidas de segurança aprovadas para o Parque da Juventude. Enquanto o autarca garantiu a excelente saúde financeira do município e acusou a oposição de “maledicência”, o PS votou contra as contas, apontando uma “derrapagem” de quase 5 milhões de euros, e o Chega optou pela abstenção, exigindo maior controlo e fiscalização interna.
A gestão orçamental foi o tema mais fraturante do encontro. A vereadora do PS, Cláudia Vieira, justificou o voto contra dos socialistas denunciando que, no curto espaço de tempo entre as reuniões de 21 de maio e 10 de julho, surgiram quase 5 milhões de euros em tarefas complementares. A oposição comparou estes desvios à realidade de outros municípios, argumentando que com este montante seria possível construir equipamentos de raiz, dando o exemplo de Sintra, onde o valor equivaleria a um terço do novo hospital. O PS criticou, ainda, a falta de fiscalização prévia que permitisse detetar falhas estruturais antes do arranque das obras.
Em resposta, o Presidente da Câmara, Mário Passos, defendeu a legalidade e a normalidade técnica dos acréscimos financeiros, sublinhando que estes se devem a melhorias substanciais sugeridas por entidades externas e direções escolares. O edil apresentou exemplos concretos: um acréscimo de 100 mil euros na Unidade de Saúde Urbana para incluir um equipamento de Raio-X sugerido pela ULS (com o objetivo de aliviar as urgências hospitalares), a expansão de três para dez salas no Centro Tecnológico da Escola Padre Benjamim Salgado e a necessidade de estacaria para garantir a segurança no Parque de Sinçães.
“A Câmara está muito bem financeiramente e estes valores já estavam acautelados no orçamento de 2026“, garantiu Mário Passos, assegurando que os custos estão validados por fiscalização externa e longe do limite legal de 50%.
O Chega, representado pelo vereador Pedro Alves, assumiu uma postura de neutralidade através da abstenção. Embora reconheça a importância de terminar as obras e valide as justificações dos relatórios técnicos, o vereador deixou avisos claros ao Executivo: “Recomendamos duas coisas ao atual Presidente da Câmara: mais fiscalização, para perceber o que aconteceu neste processo, e a responsabilização dos promotores, porque nós não podemos pagar a responsabilidade dos outros.”
Nova via do hospital sob suspeita de interesses comerciais
Outro ponto de discórdia prende-se com o projeto da nova via de acesso ao hospital e a ligação à zona de Santo Adrião/Talvai, desenhado para superar a “barreira” da Estrada Nacional 206 com uma rotunda e passadeiras sobreelevadas. Mário Passos defendeu que a obra visa humanizar as vias e melhorar o acesso à unidade de saúde, acusando o PS de “querer esconder os problemas” e de estar contra o desenvolvimento da cidade.
Por sua vez, Cláudia Vieira afirmou que a intervenção carece de uma visão global e estratégica para a emergência médica. A vereadora socialista lançou, ainda, suspeitas sobre o ordenamento do território naquela zona nobre, alertando para projetos de cariz comercial submetidos para o local. O PS manifestou preocupação sobre se a nova rua não estará a “acautelar lucros de entidades privadas e financeiras em vez do interesse público“, lamentando a falta de acesso à totalidade dos dossiers para votação.
Insegurança e novas regras no Parque da Juventude
Face aos relatos de criminalidade, ruído e tráfico/consumo de estupefacientes no Parque da Juventude, o Executivo aprovou um plano de reorganização conjunta entre a Ação Social, a Polícia Municipal e a PSP, que prevê o reforço do policiamento aos fins de semana, a proibição de trotinetes no interior e a redução do horário noturno dos equipamentos desportivos, limitando o uso dos campos a uma hora consecutiva por grupo.
As medidas foram consideradas “vagas” e “insuficientes” pelo PS. Cláudia Vieira acusou a maioria de tentar apenas “acalmar a opinião pública“, sem resolver os problemas de fundo que afetam os moradores e os estudantes das escolas vizinhas. Os socialistas propõem soluções mais robustas, como a presença física e permanente de um segurança privado no parque e intervenções arquitetónicas de insonorização para mitigar a poluição sonora.
Clima político de “cortar à faca”
No balanço final aos jornalistas, o ambiente de pré-campanha ou desgaste político foi evidente. Mário Passos desvalorizou todas as críticas da oposição, apelidando-as de “ruído” para tentar ensombrar o forte volume de obras em curso no concelho, que inclui 10 unidades de saúde, 5 escolas e 200 habitações. O autarca criticou duramente a postura do PS nestes primeiros nove meses de mandato: “Está contra tudo e todos e apresentou zero ideias estruturantes para o concelho”, rematou, elogiando, em contrapartida, o sucesso e a união demonstrados nas recentes homenagens do Dia da Cidade.
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