O burnout do clero da Igreja Católica, expressão que significa exaustão geral, que se assume como física, emocional, mental, humana e de stress, em associação com o trabalho estafante, além do isolamento, surge à tona, agora, depois de ter andado afundado, ou seja, fora do círculo dos cristãos e da sua hierarquia.
Em 23 de Setembro do ano de 2024 escrevi e apesentei um Editorial, aqui no “Famalicão Canal”, sobre “O Padre, na dimensão humana”. Sem ter bola de cristal, ser profeta (não tenho presença espiritual e conhecimentos para tal) ou vidente (não possuo dons para isso) apontei a “desgraça” que já havia pressentido quanto ao problema. Recordo um trecho do que produzi por ser elucidativo e cair, agora, que nem uma luva, quando a Igreja se mostra preocupada.
Transcrevo: “O Padre dá-se à comunidade, nas paróquias em que exerce a sua missão. É figura colaborativa na dinâmica das Instituições sociais, públicas, institucionais, culturais e seculares. O Padre acaba, algumas vezes, por estar vulnerável a propostas e a provocações. Também tu e eu. Mas o Padre, ao contrário dos demais, descarrega as suas lamentações, problemas que enfrenta e o que lhe chega dos outros…onde? Não tem muro para o fazer, família directa. Como pode, ainda, despir-se do seu desgaste, cansaço e quedas? No silêncio da sacristia? No refúgio das palavras que troca com o seu Senhor? É pouco…para quem é humano”.
E adiantei:
“O Padre precisa de família. A Igreja do séc. XXI, por outro lado, não pode castrar o Padre, porque faz parte da harmonia e da existência humana. É hormonal. O Padre, no meu modesto ver, está cansado de não ser ele e de deixar passar ao lado a Palavra de Cristo: eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ouve-se, em jeito de crítica e de chacota, que o Padre tal e tal vive com esta e tem filhos…ou vive (abstenho-me de o dizer)”.
O recém-nomeado Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Virgílio Antunes, Bispo de Coimbra, já veio afirmar que o burnout do clero é uma prioridade do seu mandato. Mas reconheceu que o cansaço ministerial afecta os padres e até os bispos, defendendo que um clero exausto não consegue exercer o seu ministério com qualidade.
O clero, todo ele, precisa de constituir família para, quando não tiver ombro para chorar, falar, descarregar e aliviar tensões, encontre a compreensão, o canto, o coração e a luz do amor que o acolha. Um destes dias conto-vos o que presenciei, no Seminário de Coimbra, abstendo-me de citar nomes. Até lá.
António Barreiros
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