Durante anos, uma parte do humor português viveu convencida de que possuía uma espécie de superioridade moral e intelectual sobre o resto do país. Atrás do rótulo confortável da “piada”, criou-se uma máquina de ataque permanente onde humilhar, ridicularizar e repetir o mesmo alvo até ao esgotamento passou a ser vendido como inteligência sofisticada. Quem fazia parte daquele circuito mediático ria-se entre amigos, protegia-se entre amigos e promovia-se entre amigos, sempre com a arrogância típica de quem acreditava nunca vir a ser questionado. O problema começou quando os portugueses perceberam que muitas vezes aquilo já não era humor — era apenas ódio socialmente aceite porque vinha embrulhado em sarcasmo e aplausos de estúdio.
O caso envolvendo os Anjos e Joana Marques veio partir essa bolha. E ainda bem.
Pela primeira vez em muitos anos, os humoristas perceberam que o público começou a distinguir humor de perseguição. Uma piada ocasional é uma coisa; transformar determinadas pessoas em saco de pancada diário é outra completamente diferente. Foi precisamente aí que muitos portugueses abriram os olhos. Não por falta de liberdade de expressão, mas por excesso de arrogância de quem acreditava estar acima de qualquer crítica.
A verdade é simples: o humor português, durante anos, habituou-se a atacar sempre dentro do mesmo guião ideológico. Os alvos eram previsíveis, os temas repetidos e a sensação de impunidade total. Quem discordava era imediatamente catalogado como antiquado, conservador ou inimigo da liberdade. Mas a realidade começou a mudar quando os próprios humoristas perceberam que já não estavam isolados numa torre de vidro.
No último ano, tornou-se evidente uma mudança importante, ainda que discreta. Não se tratou tanto de moderar discursos, mas de deixar de fazer lobby às claras, como durante tanto tempo aconteceu sem qualquer pudor. Programas que juntavam à mesma mesa humoristas, assessores da Presidência, comentadores residentes e figuras influentes da comunicação social começaram lentamente a alterar-se. Ainda de forma modesta, é verdade, mas suficientemente visível para mostrar que o desconforto existe. O caso Joana Marques tornou demasiado evidente a promiscuidade entre entretenimento, influência mediática e proteção corporativa.
Até no círculo próximo de Joana Marques surgiram sinais claros desse incómodo. Em vários “à partes” radiofónicos, as próprias colegas foram deixando reparos subtis sobre o hábito de martelar consecutivamente nas mesmas pessoas durante dias seguidos. E esses detalhes têm importância porque revelam algo maior: a consciência de que havia ali um excesso evidente que começou finalmente a incomodar dentro da própria máquina mediática.
Mais interessante ainda foi observar outra mudança: o medo do sectarismo. Muitos humoristas e comentadores começaram subitamente a abrir espaço a vozes diferentes, talvez porque perceberam que o país estava cansado de ouvir sempre a mesma bolha cultural a falar para si própria. Figuras vindas de setores mais conservadores começaram a ter mais presença e mais espaço mediático, como é o caso de Francisco Pereira Coutinho. Isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque se tornou evidente que o humor português tinha passado demasiado tempo fechado numa espécie de clube ideológico onde todos pensavam da mesma maneira.
Também os jornais e televisões começaram a sentir o desconforto. Durante anos, humoristas convidaram editores, jornalistas e figuras mediáticas para os seus programas semanais, criando relações de proximidade que destruíram qualquer aparência de neutralidade. O caso Joana Marques mostrou precisamente isso: muitos deixaram de conseguir parecer observadores imparciais porque pertenciam todos ao mesmo circuito de proteção mútua.
Os Anjos fizeram aquilo que poucos tiveram coragem de fazer: disseram “basta”. Não apenas por eles, mas contra uma cultura de linchamento mascarada de entretenimento inteligente. E independentemente de concordâncias ou divergências jurídicas, conseguiram algo raro em Portugal: obrigaram o país a pensar.
Foi em vão? Claramente não.
Hoje existe mais prudência. Mais cuidado. Mais consciência de que o humor também pode destruir reputações quando perde o equilíbrio. O país percebeu que liberdade de expressão não significa licença para transformar pessoas em personagens permanentes de escárnio coletivo.
Portugal talvez não tenha ainda um humor melhor. Mas tem certamente um humor menos arrogante. E isso, só por si, já representa uma vitória importante.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor
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