Surgiu cá em casa, pela mão de um jovem, o desta geração que já veio preparada e desperta para manejar com tecnologias de ponta, mas nunca com canetas ou fax e telex, uma impressora 3D, doméstica.
No computador pespega-se-lhe o projecto, já em 3 D (em três dimensões), o que aproveita para se visualizar com melhor e mais definição aos olhos e à nossa percepção, aquilo que se pretende que a impressora passe a moldar, numa côr decidida, de uma bobina de fio de plástico.
Agora, a máquina está a imprimir, num vai e vem, sem descanso, um suporte para escovas de dentes, em côr cinzenta. Já está nessa bailação vai para umas 23 horas. Ainda faltam 5.
Nunca lhe ouvi um gemido a pedir água, pão, um bife ou uma posta de pescada para se alimentar. Ao menos um copo, de vinho, tinto ou branco. Nada, vezes nada .Nunca me apercebi que tivesse parado para tirar umas horas de sono, de descanso.
A máquina não precisa nada disso. Anda, converte o desenho em objecto, trabalha, manipula o tal fio e movimenta-se no tabuleiro que serve de base ao que se pediu.
Fico, por vezes, a olhá-la, como se fosse um saloio que foi despejado na maior das capitais do Mundo, onde nada é como a santa terrinha. Repenso: que raio de maquineta. Relanço-lhe um olhar para rever a bailação que a torna operativa. Como estou só, aqui e ali, quando me levanto da secretária que utilizo para trabalhar, espreito-a. Um destes dias, estava ela a talhar um pequeno quartilho para ser medida da comida dos meus gatos, deu-me para atalhar como se estivesse a falar para um amigo: ”sabes disso, carago. Admiro a tua abnegação ao trabalho e, também, a perfeição e meticulosidade no que fazes”.
De repente, pensando que estava a dialogar com alguém, enfrentei-me: “que estupidez a minha a falar com esta coisa”. Falo muitas vezes com os meus cães e gatos, mas são seres vivos, de coração grande para amar… Voltei atrás para me certificar que a impressora continuava fiel ao seu labor e que, mesmo por trás dos seus gonzos e parafusos, não estava lá coração algum. Escutei. Não havia nenhuma batida.
Já há, quanto sei, impressoras de grandes dimensões que constroem casas.
A IA, como ouvi numa conferência a que assisti, em Lisboa, vai admirar-nos. Escutei, também, que não estamos preparados para o que ela vai trazer, no futuro. Estou convicto disso.
Quem não vai ficar nada agradado vão ser os sindicatos, porque esta maquinaria sofisticada e comutada à IA não precisa de quem lhe defenda os seus direitos. Apenas conhece deveres. O Mundo mudará. Por mim, à vontade por já estar na fase do lazer, para sempre.
António Barreiros
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