A intervenção de 390 mil euros no Castro de São Miguel-o-Anjo alia a preservação de vestígios arqueológicos com mais de três mil anos ao lazer, à natureza e ao turismo.
O concelho de Vila Nova de Famalicão conta, desde sábado, dia 25, com um novo e emblemático espaço verde e cultural: o Parque de São Miguel-o-Anjo. Situado na União de Freguesias de Famalicão e Calendário, o novo “pulmão” concelhio abrange cerca de 15 hectares no Monte e Castro de São Miguel-o-Anjo. A inauguração, que resultou de um investimento autárquico de cerca de 390 mil euros cofinanciado pelo programa NORTE 2030, atraiu no seu primeiro fim de semana de abertura centenas de famalicenses e visitantes que quiseram conhecer in loco a simbiose entre o património natural, arqueológico e paisagístico da região.
A intervenção promovida pela Câmara Municipal foi desenhada com um perfil minimalista e de baixo impacto, respeitando escrupulosamente a matriz biológica e os vestígios arqueológicos do local. As obras contemplaram o reperfilamento de caminhos já existentes, a instalação de passadiços em ferro, a delimitação de percursos pedonais interpretativos e de contemplação, bem como a criação de uma área de repouso, parque de merendas e equipamentos infantis e de desporto ao ar livre.
Para além disso, foram erguidos três novos pontos de observação privilegiados — o Miradouro da Fertilidade, o Miradouro dos Vales e Miradouro de Vila Nova —, que oferecem aos visitantes perspetivas panorâmicas sobre a paisagem envolvente.
“Se não fosse esta requalificação, este espaço nunca seria verdadeiramente valorizado“, afirmou Mário Passos, Presidente da Câmara Municipal de Famalicão, durante a cerimónia de abertura. “Temos aqui uma potencialidade tremenda. Quisemos qualificar este espaço para trazer valências diversas: uma experiência única de conexão com a natureza e com a nossa floresta municipal, mas também uma profunda ligação à cultura e à história.”
O autarca sublinhou que a oferta pedagógica e cultural do parque é reforçada por um sistema de audioguias que contextualiza a história de cada um dos vestígios arqueológicos presentes no local. Mário Passos reforçou, ainda, que a estratégia municipal passa pela complementaridade entre os vários parques do concelho e adiantou que o município pretende continuar a adquirir terrenos contíguos para ampliar a floresta municipal.
Acessibilidade a três milénios de história
O Monte de São Miguel-o-Anjo ostenta uma herança milenar. Estudos e achados arqueológicos indicam que o local foi habitado desde a Idade do Bronze, há cerca de 3.000 anos. Durante a Idade do Ferro (entre 2.300 a 2.500 anos atrás), ergueu-se no morro um povoado fortificado (castro). O espaço manteve relevância com a presença romana e, mais tarde, na Idade Média, desempenhou um papel estratégico na vigilância e defesa do território.
Apesar de ter sido alvo de escavações exploratórias em 1894, o seu valor científico e patrimonial só veio a ser amplamente reconhecido na década de 1980, culminando na sua classificação como Imóvel de Interesse Público em 1990.
Para Ricardo Mendes, Presidente da União de Freguesias de Famalicão e Calendário, o novo parque vem resolver um desconhecimento antigo por parte da própria comunidade local: “Tenho a perfeita noção de que pessoas que residem a 200 metros daqui não tinham conhecimento do potencial histórico e patrimonial castrejo existente a escassos metros das suas casas. Este equipamento permite valorizar e dar a conhecer a nossa história, atraindo residentes e visitantes de concelhos vizinhos.”
Sendo uma zona protegida e sensível sob o ponto de vista arqueológico e ambiental, a intervenção contou com o acompanhamento e aprovação da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC). O enquadramento legal e a salvaguarda do subsolo impedem, por exemplo, a construção de infraestruturas fixas tradicionais, como sanitários, dentro do perímetro protegido do castro.
Para garantir a preservação do ecossistema e das estruturas históricas, o município assegurou que o espaço estará sob monitorização contínua da Proteção Civil e contará com a presença diária a tempo inteiro de um colaborador municipal encarregue do cuidado, manutenção e limpeza do parque. As autoridades locais deixaram, por isso, um apelo ao civismo e ao sentido de responsabilidade de toda a comunidade para manter o espaço limpo e preservado.
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