É uma ironia cruel. Vivemos na era do 5G, da inteligência artificial e da conectividade total, mas em Leiria, 22 dias após a destruição deixada pela depressão Kristin, o tempo parou. Não por escolha, mas por abandono. Enquanto as operadoras de telecomunicações apresentam relatórios anuais com lucros recorde e dividendos generosos, os seus clientes — aqueles que sustentam esses mesmos números — são deixados à mercê de um silêncio digital que, em casos extremos, pode ser mortal.
A história do residente que, entre os escombros da sua casa, se viu impotente para pedir socorro para o filho gravemente ferido, não é apenas um “incidente técnico”. É uma falha civilizacional. Quando o 112 não atende porque a infraestrutura colapsou, o contrato social entre o Estado, as empresas concessionárias e o cidadão é rasgado.
Como explicar a um pai desesperado que a tecnologia que permite transações financeiras em milissegundos não foi capaz de garantir uma chamada de emergência?
A questão que se impõe é técnica, mas sobretudo política: por que razão o SIRESP e as redes de emergência nacionais continuam reféns de infraestruturas terrestres vulneráveis?
Hoje, sistemas como a STARLINK provam que a conectividade via satélite é uma realidade acessível e resiliente.
Manter um país “mal pensado para catástrofes” é uma escolha. Não integrar redundâncias de satélite nas linhas de ajuda e nos centros de comando é negligência.
Num cenário de catástrofe, a rede de comunicações deveria ser tratada como um bem de primeira necessidade, tal como a água ou a eletricidade, com protocolos de ativação imediata de redes alternativas.
Portugal continua a ser um país que não sabe gerir prioridades. Orgulhamo-nos de ser um “hub” tecnológico, mas falhamos no básico: garantir que, no momento do medo e da dor, ninguém fique sem voz. Se as operadoras têm milhões para investir em publicidade e lucros, têm a obrigação moral e contratual de garantir que nenhuma aldeia ou freguesia seja apagada do mapa sempre que o vento sopra mais forte.
A reconstrução de Leiria não se faz apenas com cimento e tijolos; faz-se com a dignidade de quem não é esquecido pelo sinal de rede.
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