Um novo estudo científico, que contou com a colaboração do IPMA, revela que os trabalhadores ao ar livre em Lisboa enfrentam um risco elevado de desenvolver carcinoma espinocelular devido à exposição crónica à radiação ultravioleta. A investigação, publicada na revista Frontiers, utilizou medições diretas em profissionais como jardineiros e pavimentadores entre abril e outubro de 2023, alertando para a urgência de classificar estes casos como doença ocupacional e de reforçar as estratégias de proteção e saúde pública em Portugal.
O estudo foca-se no carcinoma espinocelular (CEC), um tipo de cancro da pele não melanoma que, embora tratável se detetado precocemente, pode ser agressivo. A investigação destaca que, apesar de a radiação ultravioleta (RUV) solar ser a causa direta desta patologia em quem trabalha ao sol, os casos são frequentemente ignorados pelas estatísticas oficiais de saúde no trabalho, informa o IPMA em comunicado.
Atualmente, as diretrizes de segurança estabelecem um limite de exposição de 30 J/m² para uma jornada de oito horas. No entanto, o artigo revela que a realidade no terreno é muito distinta, com trabalhadores a acumularem doses de radiação que ultrapassam largamente os níveis de segurança, sem que existam mecanismos de compensação ou proteção jurídica adequados por não ser, muitas vezes, considerada uma doença ocupacional.
Para chegar a estes resultados, os investigadores realizaram um estudo observacional prospetivo entre abril e outubro de 2023. Foram acompanhados 90 trabalhadores do município de Lisboa, incluindo jardineiros, coveiros, marinheiros, asfaltadores e técnicos de saneamento.
A grande inovação deste estudo foi a utilização de dosímetros pessoais — pequenos dispositivos que medem a radiação exata que atinge o corpo de cada indivíduo — em vez de se basearem apenas em estimativas meteorológicas gerais. Estes dados foram cruzados com modelos matemáticos para calcular o “risco excessivo” em comparação com pessoas que trabalham em escritórios ou ambientes interiores, refere aquela nota.
Os resultados são claros: o risco é elevado e varia conforme a profissão, mas é transversal a todos os que exercem funções no exterior. A colaboração da meteorologista Fernanda Carvalho, do IPMA, foi fundamental para validar os dados ambientais que sustentam as conclusões.
O artigo científico, agora disponível na revista Frontiers, serve como um apelo à ação para as autoridades de saúde em Portugal. Os autores defendem que a dosimetria direta deve passar a ser uma ferramenta comum na avaliação de riscos e que é urgente implementar estratégias de saúde pública e segurança no trabalho mais robustas para proteger aqueles que, por força da sua profissão, estão na linha da frente da exposição solar, conclui.
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