Portugal parece viver num estado de hesitação crónica. Enquanto o mundo acelera, nós continuamos a marcar passo, presos a uma mentalidade que privilegia o curto prazo e a manutenção do status quo. Entre o saudosismo dos meios tradicionais e o planeamento deficiente das nossas infraestruturas, corremos o risco real de perder o “comboio do futuro” — e desta vez não será por atraso na sinalização da CP.
O Digital: O Parente Pobre da Comunicação
Há uma tendência quase instintiva em Portugal para proteger as “velhas glórias” da comunicação social. Quando se discute o apoio ao setor, o foco recai invariavelmente nos jornais centenários, nas rádios históricas e nos canais de televisão convencionais.
O Problema: Os novos meios digitais — ágeis, inovadores e muitas vezes mais próximos das novas gerações e das comunidades — são sistematicamente ignorados.
A Consequência: Sem apoios ou reconhecimento, a inovação mediática é asfixiada, deixando o país dependente de estruturas rígidas que nem sempre conseguem acompanhar a velocidade da informação global.
A Miopia no Betão e no Ferro
O planeamento viário e ferroviário em Portugal é o espelho de uma visão que “trava” no momento de decidir. Discutem-se manchetes pomposas sobre o TGV enquanto a realidade quotidiana do passageiro da CP – Comboios de Portugal é feita de lamentos e pedidos de desculpa nos sistemas de áudio das estações.
A discrepância entre a propaganda e o serviço real é gritante. Queremos alta velocidade quando ainda não resolvemos a fiabilidade da rede atual. No asfalto, o cenário não é melhor: o recente colapso de um troço da A1 em Coimbra, devido à queda de um pilar num dique, é o sintoma de uma manutenção reativa e de um planeamento que falha em antecipar o óbvio. Se a infraestrutura básica rui perante a força da água, como podemos aspirar a ser um hub tecnológico ou logístico de referência?
“O pensar à frente parece encontrar uma barreira invisível na mente de quem decide. Planeia-se para o ciclo eleitoral, não para a próxima geração.”
Portugal não pode continuar a ser o país do desenrasque e do remendo. Para acompanhar os nossos parceiros comunitários, a evolução tem de ser estrutural e não apenas cosmética. É necessário:
- Modernizar o Apoio à Mídia: Integrar o digital como pilar central da nossa democracia.
- Planear com Rigor: Deixar de lado o “paliativo” e investir em infraestruturas resilientes e futuristas.
- Executar antes de Anunciar: Trocar as manchetes do TGV por um serviço ferroviário que, simplesmente, funcione.
Se não mudarmos a agulha agora, o comboio do progresso europeu passará por nós sem sequer abrandar. E, desta vez, não haverá sistema de som na estação que nos valha para explicar o atraso.
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