Imagine o homem mais famoso do planeta a passear por Lisboa, de máquina fotográfica na mão, sem que ninguém desse por ele. Parece ficção, mas aconteceu a 11 de março de 1925.
Albert Einstein era já então uma estrela mundial. Tinha o Nobel da Física e uma teoria confirmada, em 1919, por um eclipse observado na ilha do Príncipe, território português. Portugal tinha, sem o saber, um pedacinho de história da ciência, e seis anos depois o próprio Einstein bateu-nos à porta. A ciência oficial nem o viu.
Ia a caminho da América do Sul, onde era esperado no Brasil, na Argentina e no Uruguai, e o navio fez escala em Lisboa. Einstein aproveitou a paragem como qualquer turista curioso. Subiu ao Castelo de São Jorge, visitou o Mosteiro dos Jerónimos e foi apontando tudo no diário de viagem. Viajava incógnito, não se anunciou e, apesar de ter um dos rostos mais conhecidos do mundo, ninguém reparou nele. O diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, Frederico Oom, não escreveu uma linha sobre a passagem do Nobel.
Então, o que é que o grande cientista achou de tão interessante em Lisboa? Não foram as academias nem os astrónomos. O que mais o impressionou foi o ar orgulhoso e o jeito maroto das varinas.
Pense-se na cena. Mulheres de canastra à cabeça, a equilibrar o peixe como quem equilibra equações, a apregoar pelas ruas da capital, e descalças. Só a partir de 1928 uma lei obrigou varinas e varinos a andarem calçados, por razões de higiene. Einstein apanhou-as ainda no tempo em que andar descalça era a regra. Muitas nem quiseram saber da lei: trabalhar com a água pelos joelhos e chinelos nos pés não era nada prático, e houve quem acabasse na esquadra por isso. As fotografias de varinas descalças chegam até à década de 1940.
E aqui entra o pormenor que, a meu ver, torna esta história irresistível. Einstein tinha uma relação muito própria com os pés. Nunca usava meias. Contam as biografias que, desde a adolescência, se fartou de ver o dedo grande furá-las e decidiu resolver o assunto pela raiz: deixou de as usar, mesmo nas ocasiões formais, escondendo a ausência dentro de sapatos fechados.
Percebem agora o paralelismo? De um lado, o génio do século, que dispensava as meias porque achava que a convenção não valia o incómodo. Do outro, as varinas de Lisboa, que dispensavam o calçado porque o trabalho não se compadecia com chinelos. Duas liberdades de pé no chão, uma por teimosia intelectual, outra por necessidade, a cruzarem-se por uns minutos numa cidade de calçada.
Talvez por isso a simpatia tenha sido instantânea. Do resto da cidade, o diário traça um retrato afetuoso: um ar algo desmazelado, mas simpático, uma vida confortável, sem pressa nem grande objetivo, e a cultura antiga a notar-se por todo o lado. Dizem até que, já do outro lado do Atlântico, no Brasil, voltou a falar das varinas.
Há aqui uma ironia deliciosa. Foi o homem que ensinou ao mundo que o tempo é relativo. Passou um dia em Lisboa e reparou, precisamente, numa cidade onde o tempo parecia correr mais devagar, entre o pregão e a conversa. E há uma pequena lição para nós. Os doutores não deram por Einstein, e Einstein deu pelo povo. A grande história de uma cidade não está só nos gabinetes. Também passa pela rua, descalça, a apregoar.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor
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