Dona Joana -Rabo-de-Peixe é o título de um livro de autoria do poeta, escritor, político e homem do Mundo, que foi Secretário Regional do Turismo e Cultura da Madeira, de 1984 a 2007, do Governo de Alberto João Jardim.
Devorei a obra, prendido que fiquei com a fluência dos episódios, com a escrita solta, com o contar popular impregnado em cada linha de sal e pimenta, com o figurativo castiço das personagens. Saboreei o livro, como quem mastiga um espada com banana ou uma espetada de carne. Deixei-me embalar, sem adormecer, com o descritivo de cada cena com os nomes retorcidos que os pais pespegam aos filhos. Fiquei agarrado a cada palavra pela transmissão de pedaços de vida – alguns pura imaginação, pródiga do autor – de um pedaço do Funchal, a Zona Velha (deve-se ao João Carlos uma boa parte da sua reabilitação).
O livro tem uma certa mística, aliás, o autor exibe-a, também…porque tem carisma. Apresenta-se bem encadernado, de que sobraíram – sempre – a suas garridas gravatas…
Está lá uma redacção popular, contendo o sabor dos mais humildes e dos que labutavam nessa área urbana da capital da Madeira (na época) sem condições para a dignidade de vida. Estão lá palavras brejeiras sem nos magoar ou cravar a indecência maldosa da “coisa”, antes na candura dos tempos de menino que já foi João Carlos Abreu. Percebo palavras possessivas, poucas; irritantes, algumas; amargas, outras; e, a maioria, travestidas de provocação, mais outras…
Está lá o saber feito, na e de vida. Existe um bailado – tem poções de maledicência que brota de certos recantos do nosso povo, seja continental ou insular – na narrativa que João Carlos Abreu soube semear na obra. Anoto a descompostura com que certos palavrões apimentam o livro, dando-lhe glamour e alma, possibilitando-nos contemplar o escritor… Conto, sem me preocupar com o seu número, as “meigas” asneiras que o autor espalhou por uma ou outra página, o que mais motiva quem lê.
Apetece-me reler. Quando, e lá mais para o Inverno, se descobrirem sem sol os dias de frio intenso que convidam ao borralho, vou agarrar-me às cenas, em jeito de estórias de alcofa – esse refúgio de gerações que deixam história – que essa Zona Velha do Funchal produziu e João Carlos transportou, em imaginário do real e da ficção, para “Dona Joana-Rabo-de-Peixe”.
Foi um gosto ler essa sua obra. Bem-haja por a estampar em folhas e a distribuir pelos leitores.
António Barreiros
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