Temos espaço para o Cristo crucificado? A pergunta faz o mais significante sentido por este tempo, o nosso, em que são tantos os calvários de agonia que nos trespassam que os deveríamos olhar para se reflectir sobre esse quadro da Paixão e da Morte. Temos espaço para retirar do calvário de Cristo toda a simbologia de que se reveste esse acto da vida do Salvador?
As 14 estações que Cristo percorreu no caminho doloroso da Via Sacra poderemos vê-las, ainda hoje, como que espelhadas, por esse Mundo além.
A condenação de Jesus à morte faz-me lembrar as de todos que são julgados e sentenciados a morrer. Carregar a cruz, como Jesus, faz-me ressaltar imagens dos que, andam por aí, vergados ao peso do trabalho e da escravidão. A 1.a queda do filho de Deus recorda-me ter caído, como outros, na estrada da vida. O encontro de Jesus com a sua mãe relembra-me, as mais das vezes, que revi a minha nos passos da vida, oferecendo-me o seu carinho, o seu olhar e o seu infinito amor. Simão veio em auxílio de quem carregava a cruz, perfilando-me quantos por essas Áfricas e outros lugares suportam o peso da fome e da miséria. Verónica limpa o rosto de Jesus, mostrando a humildade, a força de servir e a vontade de afagar. Vem a segunda queda, exibindo as nossas fragilidades e, muitas vezes, a incapacidade de termos forças, a certos momentos, para andarmos em frente. O encontro com as mulheres de Jerusalém, define a postura de cada uma, como as de hoje, que sabem o que é amar e se dão. Cristo fica sem as suas vestes, para ser humilhado pelos guardas, como o são milhares de seres humanos que ficam despidos, exibindo a sua nudez, como símbolo das fragilidades humanas. Soam os pregos, dando conta que Jesus é pregado na cruz, num significado de que há gente da nossa gente que sabe dar valor às feridas e à dor. Jesus morre na cruz, dando a sua vida por todos, assim como milhares já sofreram por outros seus irmãos. Jesus é retirado da cruz numa atitude de o deixar ir para o descanso da vida. Por último, Jesus é sepultado, sinalizando que o corpo desce à terra para que repouse donde veio…
Será que estamos atentos a estas simbologias, hoje, em tempos de frenesim, de tecnologias sem rosto, de falta de amparos, de humanismos que possam solidarizar-nos com os fracos e os débeis, de gestos descabidos, de divisões ideológicas sem razão, de corrupções que esvaziam corações e de ditadores que abusam, maltratando a dignidade do que passa envergonhado por passar andrajoso?
A Páscoa convida-nos a parar junto da Cruz para olhar o rosto de Deus, que representa o de muitos de nós abandonados e sovados por aí, no seu dia-a-dia e no seu interior. Páscoa: a passagem da morte para a vida, da escravidão para a liberdade…
Texto: António Barreiros – Jornalista
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