Guimarães gosta de se afirmar como cidade da memória, da História longa, das origens. E fá-lo com legitimidade. Mas há um paradoxo difícil de ignorar: os vimaranenses continuam sem Vímara Peres, precisamente na cidade que perpetua o seu nome.
Vímara Peres não é uma figura menor nem um detalhe erudito reservado a especialistas. É o conde que, no século IX, estruturou politicamente o território de Portucale, dando início a um processo de organização que moldaria toda a região do Entre-Douro-e-Minho. A sua ação insere-se numa geração de nobres que, em articulação com o poder astur-leonês, lançaram as bases de uma memória comum regional, muito antes de existir Portugal como reino.
Essa memória foi construída por nomes concretos: Vímara Peres, Mumadona Dias, Hermenegildo Gonçalves, entre outros. Mumadona, fundadora do mosteiro de Guimarães e figura central da consolidação territorial e espiritual da região, é justamente lembrada. Vímara, porém, permanece ausente do espaço público vimaranense — uma ausência tanto mais estranha quanto o seu nome continua inscrito na própria designação da cidade.
Desde 2018 que venho chamando a atenção para esta lacuna, através de artigos e intervenções públicas. Em 2020, o executivo camarário então em funções reconheceu a pertinência da questão e assumiu o compromisso de avançar com uma escultura evocativa de Vímara Peres, a cargo do escultor Dinis Ribeiro. O compromisso foi anunciado, a expectativa criada, mas o projeto nunca se concretizou.
Entretanto, o executivo municipal mudou. O que não mudou foi o silêncio em torno do assunto. Até hoje, não houve esclarecimento público, retoma do projeto ou redefinição do compromisso. E este silêncio contrasta com um dado que não pode ser ignorado: o Porto possui uma escultura de Vímara Peres. A cidade onde o conde exerceu o seu poder militar e administrativo encontrou forma de o homenagear. Guimarães, que lhe deve o nome, continua sem o fazer.
Não se trata de uma competição simbólica entre cidades. Trata-se de coerência histórica. A memória do território portucalense não foi construída por uma figura isolada, mas por uma rede de nobres que agiram numa lógica regional, partilhada, cumulativa. Essa memória não pertence exclusivamente ao Porto, nem a Guimarães, nem a Braga: pertence à região que eles ajudaram a fundar. Mas cada cidade tem a responsabilidade de honrar os seus pilares identitários.
Guimarães não perde nada ao lembrar Vímara Peres. Pelo contrário, ganha densidade histórica. Ganha continuidade narrativa. Ganha maturidade institucional. Uma cidade que se apresenta como berço de Portugal não pode permitir que um dos seus fundadores permaneça apenas nos rodapés da historiografia ou nas notas de especialistas.
Este não é um ataque a nenhum executivo em particular. É um apelo à cidade enquanto entidade histórica. Há compromissos que não caducam com os mandatos e memórias que não devem depender das agendas políticas. Vímara Peres não é um projeto partidário: é um dever histórico.
Enquanto o Porto lembra Vímara e Guimarães se esquece, algo está mal contado. E enquanto os vimaranenses continuarem sem Vímara no seu espaço público, a cidade continuará a carregar um nome cuja origem não assume plenamente.
A História, quando é seletiva, empobrece. Guimarães merece melhor. E Vímara Peres também.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor
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