Serralves é uma mistura que mete o Estado e uma Fundação. Estado que comprou o espaço em 1986 e, depois, o aproveitou para lá fazer um Museu de Arte Contemporânea, de autoria de Siza.
Estava lá a casa e os jardins. O Estado, com o apoio de mecenas, elaborou uma Fundação que mete nomes sonantes na Administração e muitos milhões (6,4 em 2024) do erário público.
Fui visitar. O Museu, o tal contemporâneo, é muito vanguardista, na maior parte do que expõe. Está concebido para franjas populacionais de intelectuais. Tem “coisas” expostas que são daquelas que pretendem fazer do visitante “estúpido”. Um ovo de cisne postado numa parede, que faz parte da exposição “Sussuro” de Maurizio Cattelan, é significado disso. Umas lâmpadas alinhadas com as letras dos elementos químicos, outro exemplo. Estão lá modelos ou maquetes de arquitectura que ficam bem nos expositores, mas com concretização quase inviável, pelo volume do custo. Ganha pelo sonho e pela visão de criatividade.
Uma nota que deixa transparecer o ego da pessoa: o nome da curadora-chefe (que categoria de função…) Inês Grosso, aparece amiúde nas descrições postadas nas paredes que antecipam cada espaço de exposição.
Uma outra que não deixa de se perceber desalinhada, porque não contextualiza e baralha o visitante: o espaço denominado “Meteorizações” que é projecto da cineasta e investigadora portuense Filipa César. É revelado que é fruto de “uma pesquisa artística, intelectual (…), ligada à Guiné-Bissau e ao pensamento anticolonial de Amílcar Cabral. Através de filmes, arquivos e materiais inéditos, propõe uma leitura crítica do passado (…)”.
Não está lá, no descritivo de “parede”, de qual Cabral se trata: o Amílcar ou o Luís, o seu meio-irmão? Não se dá conta, com imparcialidade, da presença portuguesa e, depois, ficamos sem nos situarmos. Qual é a actualidade do País que tem conhecido convulsões políticas e sociais brutais, resultado de um tribalismo profundo? E a vida em extrema pobreza? Uma exposição deve deixar pistas, ideias e aguçar o espírito crítico. Esta parece pretender que se possa “comer” um tipo de ideologia…
Ficam-me os jardins, com 18 ha, apesar do tempo não permitir um passeio mais espalhado pelos seus verdes. Um passadiço, a 15 metros de altura, com 260 de caminhada, o “Treetop Walk” (passear pelo topo das árvores) possibilita uma visibilidade suprema. O restante espaço é soberbo e atira-nos para a ruralidade, descansando da urbe, a do Porto. A sua responsável é a minha patrícia conimbricense Helena Freitas, renomada bióloga e responsável por toda a zona verde de Serralves. Já foi distinguida com o galardão Ernst Haeckel (2023) e, também, por tudo quanto fez em Serralves, com o Grande Prémio Ciência Viva.2025. Último retoque: era escusada aquela “obra-prima” do pirete…talvez num certo Porto brejeiro figura-se bem. Para mim, a estada em Serralves valeu mais pelos jardins.
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