A notícia de que o Governo adquiriu o software de monitorização NewsWhip por cerca de 40 mil euros não é apenas uma questão de despesa pública; é um sintoma alarmante de uma democracia que começa a confundir vigilância com governação. Quando um executivo — independentemente da sua cor política, mas com ironia acrescida por se dizer de “Centro-Direita” — investe em ferramentas para catalogar jornalistas e prever a viralização de conteúdos, a liberdade de imprensa deixa de ser um pilar e passa a ser um alvo.
O contrato com a empresa irlandesa NewsWhip revela especificações que deveriam fazer qualquer cidadão atento questionar as intenções do Estado. Não estamos a falar de uma simples ferramenta de clipping, mas de um sistema capaz de:
Criar “listas de jornalistas” com base no seu impacto mediático e alcance.
Utilizar modelos preditivos para antecipar o que se tornará viral.
Identificar “vozes influentes”, colocando-as sob o radar governamental antes mesmo de uma notícia atingir o grande público.
Ao estratificar a classe jornalística em listas de “influência“, o Governo cria, inerentemente, uma hierarquia de quem deve ser observado com mais cautela ou, eventualmente, incorporado.
O cenário torna-se ainda mais sombrio quando cruzamos este dado com a atuação da LUSA. A agência de notícias, que deveria ser um suporte ao ecossistema mediático, tem vindo a cobrar às redações digitais pelo uso de fotografias para ilustração.
Estamos perante um paradoxo perigoso: De um lado, o Estado retira oxigénio financeiro aos Órgãos de Comunicação Social (OCS) através de cobranças de direitos. Do outro, utiliza o dinheiro dos contribuintes para adquirir tecnologia de ponta que permite monitorizar e “fiscalizar” esses mesmos órgãos que já lutam pela sobrevivência.
“A função do jornalismo é fiscalizar o poder, não o contrário. Quando o poder investe em tecnologia para ‘aferir o que fazem os jornalistas’, a ordem democrática é invertida.”
Argumentar-se-á que o Governo precisa de estar a par do “sentimento público“. No entanto, existe uma linha ténue — e agora ultrapassada — entre acompanhar a atualidade e construir uma infraestrutura de vigilância sobre a opinião pública e os seus mediadores.
Se um Governo de Centro-Direita, que teoricamente deveria privilegiar a liberdade individual e a menor intervenção estatal, opta por este caminho, que precedente abre para o futuro? A criação de meios de comunicação próprios pelo governo já era uma concorrência direta e desleal aos OCS; a monitorização algorítmica de jornalistas é, sem eufemismos, um atentado à liberdade de imprensa.
Em democracia, o escrutínio deve ser transparente e de baixo para cima. Quando o topo da pirâmide compra “binóculos digitais” para vigiar quem o crítica, a transparência torna-se opaca e a liberdade de informar passa a viver sob o peso da monitorização constante. O jornalismo não precisa de supervisores estatais; precisa de independência e de um Estado que respeite o seu papel de contra-poder.
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