- Ao olhar para o tempo que atravessamos, marcado por notícias de guerra, destruição, aumentos dos preços dos bens e um sofrimento que parece não ter fim, sinto que a nossa missão cristã se assemelha, mais do que nunca, à arte da jardinagem. Num mundo que muitas vezes parece um deserto de betão e indiferença, falar da Páscoa da Ressurreição de Jesus Cristo é falar da audácia de plantar vida onde tudo parece estéril e recordar as Suas palavras: «Eu sou a Ressurreição e a Vida» (Jo 11, 25).
- Por sua vez, na jardinagem, nada é instantâneo. Há um tempo para preparar a terra, um tempo para lançar a semente e um longo tempo de espera invisível debaixo do solo. Ao entrarmos no espírito da Semana Santa e na vivência da Páscoa, percebemos que a Ressurreição não é um evento estático. É um processo de cultivo. A guerra é a destruição cega; a Páscoa é o cuidado paciente. E tantas vezes é assim a nossa ação pastoral nas nossas famílias, comunidades e Arciprestado. Como sublinha Fabrice Hadjadj no seu livro “Ressurreição – Manual de Instruções”, a vida nova de Cristo manifesta-se nos gestos quotidianos: no perdão que demora a amadurecer, na caridade silenciosa e na atenção aos mais frágeis.
«Na Quaresma, a terra acolheu a fecundidade na fragilidade. Agora, é tempo de florescer. Não às flores artificiais, perfeitas, bonitas, mas sem qualquer vida. Sim, à beleza discreta e real de quem se deixa cultivar por Cristo» (Mensagem dos bispos de Braga para o tempo da Páscoa de 2026).
- Na verdade, os nossos bispos, ao falarem de um “jardim da esperança”, deixam-nos uma imagem que interpela. Um jardim não nasce por acaso: precisa de ser cuidado, trabalhado e protegido.
Um bom jardineiro sabe que o vigor do jardim depende da saúde de cada planta. Nesta tarefa somos, portanto, chamados a “semear a paz”. De facto, a sementeira é um ato de fé: lançamos a semente à terra sem o controlo total sobre o tempo ou a colheita. Semear a paz exige a paciência de quem sabe que o Bem tem o seu próprio ritmo, mas que, uma vez enraizado, é imparável.
Neste sentido, surge uma pergunta inevitável e pessoal: como está o teu vaso e/ou o teu jardim? Antes de olharmos para os grandes campos de batalha do mundo, precisamos de olhar para o vaso e o jardim que é o nosso coração: estará ele seco pelo cinismo ou indiferença?; ou estará cheio de “ervas daninhas” como a pressa que atropela o outro ou o julgamento precipitado?; ou será um solo fértil, humedecido pela oração e revolvido pelo desejo de reconciliação?
Assim, viver a Páscoa é, fundamentalmente, aceitar o compromisso de ser jardineiro, isto é, de arregaçar as mangas corajosamente e inclinar-se com humildade para semear mais e melhor.
- No nosso Arciprestado, este jardim constrói-se na união das nossas paróquias (padres, diáconos, jovens, escuteiros, acólitos, leitores, grupos corais, confrarias, conselhos económicos e pastorais, delegados de zona, comissões, centros sociais, associações, etc.). Tal como num jardim a diversidade de flores cria a beleza do conjunto, também as nossas diferentes comunidades, movimentos e carismas precisam de jardineiros chamados a semear e a fazer brotar a alegria, a paz e a comunhão (cf. José Augusto Mourão, A Palavra e o Espelho, «Páscoa de Páscoas»).
Deste modo, «o maior sinal desta vida a florescer é a Cruz: aquele madeiro seco, plantado como sinal de morte, tornou-se Árvore da Vida. Por isso, sugerimos algo simples e concreto: porque não colocar, nas nossas casas, durante o Tempo Pascal, uma cruz florida? Não como decoração, mas como memória viva de que Cristo faz florescer até aquilo que em nós parece perdido» (Mensagem dos bispos de Braga para o tempo da Páscoa de 2026).
Que saibamos, com humildade e coragem, meter “as mãos à terra”. Cuidemos dos nossos vasos, semeando com generosidade, para transformar cada comunidade do nosso Arciprestado num lugar onde a paz, mesmo frágil, tenha sempre terra fértil para florescer. «O deserto e a terra árida alegrar-se-ão; a estepe exultará e florescerá como o narciso; florescerá e exaltará, gritando de alegria» (Is 35,1): o Senhor Ressuscitou! Aleluia! Aleluia!
Uma Santa e Feliz Páscoa para todos!
O vosso Arcipreste,
Pe Nuno Vilas Boas
PUBLICIDADE























Comentários sobre o post