Acompanhar as recentes manifestações pelo direito à habitação é testemunhar o grito de uma geração que se sente encurralada. Conseguir uma casa a um preço compatível com os salários praticados em Portugal deixou de ser um passo natural na vida adulta para se transformar num privilégio quase inalcançável. O descontentamento que se faz sentir nas ruas não é uma mera insatisfação passageira; é o sintoma grave de um país que está a sufocar a sua população.
Os jovens são a face mais visível e ruidosa desta luta, e com toda a razão. Pedem apenas o básico: condições dignas para construírem o seu futuro, trabalharem e viverem de forma independente no país onde nasceram. No entanto, o problema extravasou há muito a juventude. A crise do imobiliário afeta hoje a grande maioria das famílias portuguesas, desde a classe média até aos idosos, empurrados para as periferias ou sufocados por rendas e prestações bancárias incomportáveis.
Perante esta emergência social, a resposta da classe política tem sido profundamente desalentadora. Em vez de convergência e responsabilidade, assistimos a um espetáculo lamentável de acusações mútuas. Os maiores partidos do arco governativo continuam enredados num jogo de empurrar de culpas, bloqueados por questiúnculas ideológicas e calculismo eleitoral. É incompreensível que, perante um dos maiores desafios do nosso tempo, os líderes políticos, ainda, não se tenham sentado à mesma mesa para desenhar uma estratégia nacional sólida e duradoura.
Garantir o acesso à habitação não é uma questão partidária; é um dever constitucional e uma obrigação moral do Governo e dos partidos da oposição. Exige-se maturidade democrática para encontrar pontos de contacto entre a regulação de mercado, o incentivo ao investimento privado e a criação urgente de um parque habitacional público digno desse nome.
A crise da habitação que devasta Portugal e ecoa por toda a Europa revela uma falha estrutural de governação. Ver a incapacidade de resposta dos líderes europeus diante de um problema tão elementar é, sem rodeios, uma vergonha. A habitação não é uma mercadoria de luxo nem um instrumento de arremesso político; é o pilar fundamental sobre o qual se constrói uma sociedade justa. Se os nossos representantes continuarem a virar as costas a esta realidade, não será apenas o mercado imobiliário a colapsar — será a própria confiança da cidadania na democracia.
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