A escola sempre foi descrita como o “grande equalizador” da sociedade. No entanto, ao cruzarmos os portões de qualquer estabelecimento de ensino em Portugal, do básico ao secundário, a barreira visual entre estratos sociais é tudo menos invisível. Recentemente, o debate sobre o vestuário escolar ganhou novas camadas: por um lado, a tendência para roupas cada vez mais “ousadas” ou casuais; por outro, o regresso da discussão sobre a obrigatoriedade dos uniformes como ferramenta de coesão social.
O fenómeno do vestuário “ousado” — decotes acentuados, calções curtos, t-shirts com mensagens disruptivas ou marcas de luxo ostensivas — não é apenas uma questão de pudor ou etiqueta. É um reflexo da cultura da imagem em que vivemos. Para os jovens, a roupa é uma extensão da identidade. Contudo, quando o recinto escolar se transforma numa passerelle de tendências ou num palco de diferenciação económica, o foco no ensino acaba, inevitavelmente, por ser diluído.
A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas a escola é um ambiente de trabalho e preparação cívica. O excesso de liberdade estética muitas vezes mascara uma profunda desigualdade: quem pode acompanhar as modas e quem é marginalizado por não as possuir.
A implementação de uniformes obrigatórios pelo Ministério da Educação, estendendo-se até ao ensino universitário, surge frequentemente como uma proposta radical, mas os seus benefícios merecem uma análise séria:
Na atenuação das barreiras sociais: o uniforme elimina a exibição imediata do poder de compra. Quando todos vestem o mesmo, o aluno é avaliado pelo seu desempenho e caráter, não pela marca das sapatilhas.
No foco no desempenho académico: Reduz-se a pressão social matinal e o bullying relacionado com a aparência física.
No sentimento de pertença: O uniforme cria uma identidade institucional, reforçando a ideia de que, naquele espaço, todos pertencem à mesma comunidade de aprendizagem.
Quanto ao Desafio da Transição
Propor uniformes até ao ensino universitário em Portugal seria, sem dúvida, um choque cultural. No ensino superior, a autonomia é o pilar central, e a imposição de uma farda poderia ser vista como um retrocesso à infantilização do estudante. Todavia, se olharmos para as prestigiadas universidades anglo-saxónicas ou para a própria tradição do traje académico português (a capa e batina), percebemos que a farda pode ser um símbolo de orgulho e não de opressão.
A educação não se faz apenas de livros, mas de valores. Enquanto permitirmos que a moda e o estatuto financeiro ditem a hierarquia social dentro das escolas, estaremos a falhar na missão de criar um ambiente de verdadeira igualdade de oportunidades. A tutela da educação deve refletir se o “conforto” da roupa casual compensa o custo social da segregação visual.
Talvez o uniforme não seja uma restrição à liberdade, mas sim o garante de que, na escola, a única coisa que deve brilhar é o intelecto.
Paulo Jorge Silva – Diretor Famalicão Canal TV
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